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MERCADO DE TRABALHO

Mercado naval bombando
20-09-2009

Indústria naval vive maior onda de investimentos em três décadas e precisa de 40 000 profissionais qualificados até 2013

A carreira do engenheiro elétrico Gamaliel Suk Kim, de 29 anos, sofreu uma reviravolta em menos de um mês. Formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Gamaliel passou no concurso para trabalhar no metrô da capital paulista, a Companhia do Metropolitano.

Ele começava a construir uma carreira estável, sem grandes desafi os, até que, em julho do ano passado, foi convidado a se mudar para o Nordeste, para trabalhar em um estaleiro em construção. Antes, partiria em missão para a Coreia do Sul. Gamaliel, que é fi lho de coreanos e fl uente na língua, seria o intérprete de um grupo de gerentes que viajava para um treinamento no país do segundo maior polo naval do mundo — fator decisivo na contratação.
 
“Até então nem sabia o que era um estaleiro”, diz o engenheiro. A proposta incluía um aumento salarial de 100% e ajuda-moradia de dois anos. Gamaliel visitou a obra, conversou com os pais e, no mesmo mês, assinou contrato com o Atlântico Sul, o maior empreendimento da indústria naval hoje no Brasil, cujo investimento previsto é de 1,4 bilhão de reais. “Conheci meu novo chefe no início de agosto, no aeroporto”, diz.

A construção da fábrica de navios, que tem como sócios os grupos Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, PJMR e a coreana Samsung, no porto de Suape, a 40 quilômetros de Recife, é um dos símbolos da retomada dos negócios e contratações no setor. “Ao redor do estaleiro, está se formando um gigantesco polo de investimentos e oportunidades”, diz Carlos Rebellato, sócio-diretor da consultoria Deloitte, em Recife.

No fi m dos anos 70, a produção de navios no Brasil chegou a ser a segunda maior do mundo, mas depois enfrentou um longo período de estagnação. Foi reaquecida na última década, com a expansão da indústria do petróleo e o aumento da demanda por embarcações de apoio, o que atraiu novos investidores. Em 2007, a encomenda de grandes petroleiros pela Transpetro, braço logístico da Petrobras, contribuiu para o reaquecimento.

O país hoje tem cerca de 30 estaleiros grandes e médios e, segundo estimativa do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Off shore (Sinaval), a quinta maior carteira de encomendas do mundo.


MAIS EMPREGO

Outro indicador do crescimento desse mercado é o número de empregos gerados. Nos últimos três anos, a quantidade de vagas criadas mais que dobrou, chegando a 45 470 postos em junho de 2009. “Não houve renovação da mão de obra e há uma grande demanda reprimida, tanto de engenheiros experientes como de pessoal operacional”, diz Floriano Pires, professor de engenharia naval da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estaleiro Atlântico Sul tem hoje cerca de 3 000 funcionários, além de 6 000 terceirizados, trabalhando simultaneamente na construção da fábrica e do primeiro navio — um petroleiro de 274 metros que deve ser entregue em abril do ano que vem. Até o fi m de 2010, o quadro de funcionários diretos deve chegar a 5 000 pessoas. Com difi - culdades para recrutar mão de obra básica na região, a empresa construiu um centro de treinamento que formou mais de 2 000 operários.

O estaleiro também negocia com universidades do estado a criação de cursos de nível médio e superior na área naval. Por enquanto, teve de contratar 80% dos seus gestores industriais fora do estado. “Para cargos de supervisão e gerência, contratamos veteranos em polos como Rio de Janeiro e Itajaí, em Santa Catarina”, diz o presidente do estaleiro, Angelo Bellelis, de 45 anos. Ex-diretor de multinacionais como Alstom e ABB, o executivo também foi recrutado no ano passado pelo headhunter Luiz Carlos Cabrera, da consultoria Amrop- Panelli Motta Cabrera. Um dos profi ssionais a que Angelo se refere é o diretor industrial Reique Abe, de 66 anos, que estava no grupo Metalnave, em Itajaí. Reique trabalhou por mais de 30 anos no principal estaleiro do país no período, o japonês Ishibrás, no Rio de Janeiro. “Estou hoje no maior e mais desafi ador projeto dos meus 40 anos de carreira”, diz. As histórias de Reique e Gamaliel ajudam a entender parte da realidade da indústria naval brasileira. De um lado, contratações e oportunidades em grandes projetos.

Do outro, escassez de gente experiente e urgência para formar pessoas. No Atlântico Sul, a idade média de gerentes e diretores é de 51 anos. Para ter uma ideia, a média de idade nas companhias que participam do Guia VOCÊ S/A-EXAME – As Melhores Empresas para Você Trabalhar, publicado pela Editora Abril, é de 39 anos. “Muitos estão perto da aposentadoria e há pouca gente disponível no mercado. Nosso desafi o é preparar sucessores, e isso leva tempo”, diz Jane Souza, gerente de recursos humanos do estaleiro.

José Guilherme Moraes, 27 anos, engenheiro da DNV, no Rio de Janeiro: contratação ao sair da faculdade e treinamento no exterior

 

MAIS EMPREGO

Outro indicador do crescimento desse mercado é o número de empregos gerados. Nos últimos três anos, a quantidade de vagas criadas mais que dobrou, chegando a 45 470 postos em junho de 2009. “Não houve renovação da mão de obra e há uma grande demanda reprimida, tanto de engenheiros experientes como de pessoal operacional”, diz Floriano Pires, professor de engenharia naval da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estaleiro Atlântico Sul tem hoje cerca de 3 000 funcionários, além de 6 000 terceirizados, trabalhando simultaneamente na construção da fábrica e do primeiro navio — um petroleiro de 274 metros que deve ser entregue em abril do ano que vem. Até o fi m de 2010, o quadro de funcionários diretos deve chegar a 5 000 pessoas. Com difi - culdades para recrutar mão de obra básica na região, a empresa construiu um centro de treinamento que formou mais de 2 000 operários.

O estaleiro também negocia com universidades do estado a criação de cursos de nível médio e superior na área naval. Por enquanto, teve de contratar 80% dos seus gestores industriais fora do estado. “Para cargos de supervisão e gerência, contratamos veteranos em polos como Rio de Janeiro e Itajaí, em Santa Catarina”, diz o presidente do estaleiro, Angelo Bellelis, de 45 anos. Ex-diretor de multinacionais como Alstom e ABB, o executivo também foi recrutado no ano passado pelo headhunter Luiz Carlos Cabrera, da consultoria Amrop- Panelli Motta Cabrera. Um dos profi ssionais a que Angelo se refere é o diretor industrial Reique Abe, de 66 anos, que estava no grupo Metalnave, em Itajaí. Reique trabalhou por mais de 30 anos no principal estaleiro do país no período, o japonês Ishibrás, no Rio de Janeiro. “Estou hoje no maior e mais desafi ador projeto dos meus 40 anos de carreira”, diz. As histórias de Reique e Gamaliel ajudam a entender parte da realidade da indústria naval brasileira. De um lado, contratações e oportunidades em grandes projetos.

Do outro, escassez de gente experiente e urgência para formar pessoas. No Atlântico Sul, a idade média de gerentes e diretores é de 51 anos. Para ter uma ideia, a média de idade nas companhias que participam do Guia VOCÊ S/A-EXAME – As Melhores Empresas para Você Trabalhar, publicado pela Editora Abril, é de 39 anos. “Muitos estão perto da aposentadoria e há pouca gente disponível no mercado. Nosso desafi o é preparar sucessores, e isso leva tempo”, diz Jane Souza, gerente de recursos humanos do estaleiro.

CHANCES DE CARREIRA

Enquanto as empresas quebram a cabeça para solucionar o problema, aumentam as oportunidades de trabalho e os investimentos em treinamento. Até 2013 será necessário qualifi car 124 000 pessoas para a indústria naval do país, segundo estimativa do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp), do governo federal. São mais de 7 000 profi ssionais de nível superior, 33 000 de nível médio e mais de 80 000 operários (mecânicos, soldadores, entre outros).

“Além dos estaleiros, cresce a demanda em empresas que fornecem materiais e equipamentos para as embarcações. Precisaremos de técnicos diversos e engenheiros de montagem, construção e projetos”, diz José Renato Ferreira, coordenador executivo do Prominp. Há ainda oportunidades para profi ssionais de logística, comércio exterior, segurança do trabalho e fi nanças. Outra carreira em alta é a de engenheiro naval.

O país conta com três cursos de graduação na área — UFRJ, USP e Universidade Federal do Pará (UFPA) —, que já refl etem o novo momento. “Chegamos a ter uma evasão de 75% no curso. Neste ano, estamos ampliando o número de vagas”, diz o professor Floriano Pires, da UFRJ. O engenheiro naval pode atuar em escritórios de projetos, empresas de exploração de petróleo e que certifi cam embarcações. O salário para um profi ssional com cinco anos de mercado fi ca entre 10 000 e 12 000 reais. Quem tem experiência na área de off shore (construção e operação de plataformas marítimas de petróleo) está ainda mais valorizado. “Pagam-se 20% mais que a média da indústria para iniciantes. Já um supervisor experiente, com todos os adicionais do setor, pode ganhar mais de 20 000 reais por mês”, diz Fabiano Kawano, consultor da empresa de recrutamento Robert Half, no Rio.

POLOS EM TODO O PAÍS

No Nordeste, além de Pernambuco, há previsão de novos empreendimentos no Ceará e na Bahia. Na região Sul, a construtora WTorre está prestes a concluir um estaleiro em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e tem planos para outros dois. Há ainda o polo de Itajaí, que responde por 6% dos empregos no setor. Na região Norte, empresas de navegação fl uvial também estão investindo em novos projetos. O estado do Rio de Janeiro, contudo, ainda concentra 48% das oportunidades de trabalho.

O Atlântico Sul, por exemplo, mantém um escritório na capital carioca com cerca de 120 engenheiros projetistas e desenhistas, além de uma equipe comercial. Cidades como Niterói, Angra dos Reis e o próprio Rio abrigam os estaleiros mais antigos do país, os principais centros de pesquisa e a maior parte das empresas de projeto e certifi cação. Isso sem falar na sede da Petrobras, que é o maior empregador do setor e também o principal cliente, o que atrai para o seu redor uma série de fornecedores especializados. Um deles é a norueguesa DNV, empresa de certifi cação e gerenciamento de riscos em engenharia, que tem 320 funcionários no país. No ano passado, a multinacional ampliou o seu quadro em mais de 40%, contratando principalmente engenheiros. A companhia tem hoje uma carteira de 20 plataformas de petróleo, o dobro de dois anos atrás.

Nessa área de naval e off shore, a maioria dos funcionários é jovem, com dois a três anos de experiência. “Tem sido difícil encontrar profi ssionais maduros, por isso, contratamos recém-formados e damos treinamento formal e on the job”, diz Cláudia Rebello, gerente administrativa para América do Sul. Em 2008, a companhia investiu mais de 4 000 reais por pessoa em capacitação. Um dos benefi ciados foi o engenheiro naval paulista José Guilherme Moraes, de 27 anos. Ele foi contratado em março de 2008, poucos meses após sua formatura. De lá para cá, José Guilherme já voltou a frequentar a sala de aula algumas vezes e, no ano passado, fez um treinamento de dois meses na Coreia do Sul. “Tive contato com profi ssionais de 60, 70 anos, com quem nós temos muito que aprender.”

uol

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